08 Junho 2011

MUNDO VELHO SEM PORTEIRA**

(Armando Nogueira)

Conta-se que Veruschka, manequim número 1 do mundo, foi embora anteontem, no mais profundo esquecimento, depois de aqui ter chegado com festa e sob proteção de ruidosas motocicletas. E porque a desprezassem, duas semanas depois de sufocá-la em homenagens, Veruschka viajou magoada com todos nós.

A, minha moça, console-se, se é que é consolo e não tristeza, com o ostracismo cruel a que foi atirado, pela ingratidão do tempo e dos homens, um moço de pernas não tão retas, porém mais gloriosas que as suas, Veruschka.

Não me admira o desprezo que votamos a Veruschka, depois de tanto festejá-la, mito, e, certamente, muito mais de cortejá-la, mulher.

Pior foi o que fizemos com o nosso Mané que aqui chegou duas vezes também sob a proteção de batedores, hinos e bandeiras, herói de duas guerras em que conquistou o mundo sem matar ninguém – só brincando de gato e rato: os computadores soviéticos, tão certeiros nos rumos da Lua, tão desorientados pelo drible angelical do guerrilheiro.

Drible que todos beijaríamos, a começar de Mestre Drummond, ainda que beijando o gesto fosse preciso beijar-lhe os pés. Porque, correndo pelos campos, Veruschka, ele era um anjo de pernas tortas mas no caminho certo, no caminho da alegria mais pura que eleva o homem às portas do céu.

Vinha cá na intermediária, recolhia a bola: Velocidade zero. Num segundo, dava-se o arranque, um metro adiante, aquela explosão muscular lançava-o no espaço com a leveza de um passarinho: se quisesse voar, voava, mas não era preciso tanto para chegar ao ninho (não existe uma história de aninhá-la no fundo das redes?). Bastava frear o corpo, arrancar de novo pela direita -, e lá se ia por terra o equilíbrio universal dos laterais.

Saibam os matemáticos que muitas vezes ele parecia no meio do caminho, às quedas, seu próprio centro de gravidade; e continuava, em pé, pela direita, fluente como uma queda d’água.

Lançado no processo do drible, transfigurava-se. Era Chaplin, esculpindo no vento uma sucessão maravilhosa de gestos cômicos; era o toureiro, inventando verônicas que a multidão saudava, cantando olé; era São Francisco de Assis, engrandecido na humildade com que sofria os pontapés do desespero.

Aquele drible pela direita que era a negação do drible, porque sabido de todos, em todos os campos do mundo, fez milionários sem conta. Chegava à linha de fundo, os beques cercando a área, o espaço minguando...um metro, meio metro, “ele não tem mais campo, vai dar o carrinho agora”. Amarga ilusão: para um drible dele, a superfície de um lenço era um latifúndio.

E o centro, meia distância, rasteiro ou aéreo, punha a bola aos pés do artilheiro.

Individualista, sinônimo de egoísta; não na cartilha dele que fazia do drible a alegria do povo e do passe a glória do companheiro.

Tudo isso foi ontem.

Que sabe dele, hoje?

Anda por aí, acorrentado, chutado, talvez de sandálias, a bola de ferro da nossa indiferença.

Estátua, nome de rua, conta bancária: nada lhe demos, nem uma festa para a volta olímpica no estádio que ele eternizou com uma obra efêmera e imortal de seu drible pela direita.

Muito tenho pedido aos doutores por um jogo de despedida. Pouco importa que muita gente lá não apareça para fazer uma bilheteria de ajuda ao ídolo descuidado do futuro. O que se exige, ao menos por vergonha, é a reverência, é o reconhecimento à obra de um herói que, brincando pelo mundo afora, nos fez um pouco mais felizes; que, sem dar um tiro, sem um discurso sequer, fez o Brasil mais nação ainda, unindo um povo para cantar, de mãos dadas, como crianças de um mundo sem lágrimas, a alegria de uma vitória nacional. Que Deus nos perdoe o pecado de desprezar um ídolo porque, pelo menos a mim, já me basta a pena de nunca mais voltar a ver nos estádios um drible de Garrincha.

**Crônica publicada no caderno de esportes do jornal do Brasil, todo dedicado a Garrincha na data da morte do craque.

***Um erro não justifica outro. Não é o fato de um craque não ter recebido o devido reconhecimento dos "nossos" dirigentes que proíbe que outros o recebam. Esse post foi apenas para dizer que muitos, alguns maiores do que Ronaldo, por exemplo, mereceram - e merecem - mais respeito do futebol brasileiro.

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